Educação Financeira

Resenha da semana: a Selic caiu de novo, mas quando isso chega na conta de casa?

Gilberto Lopes · 6 de outubro, 2026 · 6 min de leitura
Resenha da semana: a Selic caiu de novo, mas quando isso chega na conta de casa?

Os juros básicos caíram de novo nesta semana. Para a família que vive de salário e carrega parcela no cartão, a pergunta que importa é outra. Quando esse corte chega na conta de casa? A resposta curta é que chega devagar, e os números da própria semana mostram por quê.

O Banco Central cortou a Selic para 13,75% ao ano na quarta, 16/09/2026

Na 281ª reunião, o Copom reduziu a taxa básica de 14,00% para 13,75% ao ano, com vigência a partir de 17/09/2026. Olhando o histórico do Banco Central, a taxa caiu em todas as reuniões desde março: 14,75% em 18/03/2026, 14,50% em 29/04/2026, 14,25% em 17/06/2026, 14,00% em 05/08/2026 e agora 13,75%.

O tom do comunicado é de cautela. O Copom diz que a inflação desacelerou e ficou abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, mas ainda acima da meta. As expectativas do mercado apuradas pela pesquisa Focus estão em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027. O comitê também deixou escrito que o tamanho total do ciclo de cortes vai depender das próximas informações. Ou seja, ninguém prometeu nada sobre a próxima reunião.

Os juros que a família paga estão em outra escala

Aqui mora o detalhe que muda o planejamento. A Selic é a taxa de referência da economia, e o crédito que chega na mão da família custa bem mais. Segundo a nota de estatísticas monetárias e de crédito do Banco Central, divulgada em 28/08/2026, a taxa média do crédito livre às pessoas físicas ficou em 60,0% ao ano em julho de 2026. Caiu 3,9 pontos percentuais no mês, com recuo no crédito pessoal não consignado e no cartão de crédito total.

Na mesma nota, a inadimplência das famílias no sistema financeiro chegou a 5,8% em julho, e o comprometimento de renda com dívidas ficou em 28,9% em junho.

Na prática, o que eu vejo é o seguinte. Quem já está pagando uma parcela fixa não sente o corte da Selic nessa parcela, porque a taxa foi contratada lá atrás. O alívio aparece em crédito novo, e mesmo assim devagar. Então, para quem está no vermelho, a conta de casa continua sendo a ferramenta mais rápida que existe.

82% das famílias seguem endividadas, e a pressão cresceu na base

Na quinta, 10/09/2026, a CNC divulgou a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de agosto. O percentual de famílias com dívidas ficou estável em 82%, sétimo mês seguido de recorde, contra 78,8% em agosto de 2025. A inadimplência subiu para 29,9% das famílias, e as que dizem não ter condições de pagar as contas em atraso chegaram a 12,5%, o maior nível desde fevereiro.

O retrato piora nas famílias com renda de até três salários mínimos. Ali, 85,1% estão endividadas, 38,8% têm conta em atraso e 18,3% dizem não ter como quitar. Foi a única faixa de renda em que a inadimplência avançou no mês.

Tem mais dois números da pesquisa que valem a atenção de quem cuida do orçamento. O tempo médio de atraso subiu para 65 dias. E 19,2% das famílias comprometem mais da metade da renda com dívidas, o maior nível desde março, embora o comprometimento médio tenha ficado estável em 29,5%.

Sinceramente, esse é o dado que mais pesa na semana. Atraso longo vira juro sobre juro, e é aí que uma dívida administrável deixa de ser.

A inflação de agosto veio negativa, e o índice das famílias de menor renda também

O IBGE divulgou na sexta, 11/09/2026, o IPCA de agosto em -0,32%. O INPC, que mede a inflação das famílias com renda de um a cinco salários mínimos, também ficou em -0,32%. A maior queda veio da energia elétrica residencial, que recuou 7,63% por causa do Bônus de Itaipu, creditado nas faturas emitidas em agosto.

A alimentação no domicílio caiu 0,61%, com batata-inglesa, cenoura, cebola e tomate entre as maiores quedas. Do outro lado, o leite longa vida subiu 1,78% e as carnes, 0,61%.

Olha, um mês de deflação ajuda o caixa de setembro. Só que o crédito na conta de luz foi pontual, e hortaliça sobe e desce com a safra. Se sobrou dinheiro em agosto, faz mais sentido usar essa folga para adiantar uma parcela cara ou tirar uma conta do atraso do que tratar como aumento de renda.

O que observar na próxima semana

O IBGE divulga o IPCA-15 de setembro em 25/09/2026. Ele mostra se a queda de agosto teve continuidade ou se foi só efeito do mês. Sobre os juros, o próprio Copom avisou que vai decidir conforme os dados.

Para a família, o exercício da semana é chato de encarar e fácil de fazer. Some quanto do orçamento vai todo mês para parcela e juro. É o tipo de número que a gente só enxerga quando anota, no caderno ou num app como o Lar Azul.

Fontes